segunda-feira, 4 de julho de 2016

apontamentos

agora que estou costurando meu pulso de cortes, ele está vivo. e sabe, eu posso ter tido as atitudes mais vis, porque também sou feita dessa matéria que apodrece. feito uma fruta roxa espremida de si mesma, sem aguentar caroços. caroço é o coração da fruta, sabe? e apodrece se a gente não trabalha na boca do outro. eu trabalho na sua boca a minha fala. e é também por isso que quero que vá embora. sabe o que eu quero? eu quero dar. hoje acordei com vontade de dar. acho que vou aceitar um convite. é assim: as bocas do mundo me devoram. e eu quero a sua boca. vai entender. a matéria que também me apodrece, me nasce, me violeta. sucumbo. nada pode contra isso que é. e sabe.. quanto mais eu tento te encontrar, mais eu sei que nos encontraremos nisso que não é encontro. porque enquanto eu estiver com você no meu amor, nada sairá um fio sequer, do lugar de onde o amor vem. então eu posso mesmo dizer que você vai embora,eu posso implorar até, mas não sou eu que amo, entende? é o amor que ama, isso que vem de você. sim, de você. algo que nunca saberemos, porque afirmamos amar. e eu sei, nossa, como sei que vou te amar quando eu não te amar mais. é ali que vou te amar. algumas forças me acompanham, como a força das ágatas. elas se rendem a si mesmas. como serpente listrada do mar, eu nunca nunca nunca serei eu, como nunca serei esse amor, se eu falar nele. então é isso. não vou mais falar. eu já disse que as janelas dos meus olhos dão no infinito? e que depois do infinito existe uma cortina de cetim que dá no coração? então, depois do infinito tem mais, e é isso que não podemos tocar que nos une. e sabe, eu falo de você como se você fosse mesmo você. acho estranho. preciso ir antes que eu me encerre. continuo,

talvez no poema
caiba
uma caixa de mim
negra como noite sem lua
e espaço para tudo
que te alimenta
a fome

sem sede é que cedemos
ao infnito,
sem nada é que ele é

e o meu lugar
é o sem-lugar
onde você mora

Nenhum comentário:

Postar um comentário