domingo, 13 de setembro de 2015

um pequeno retorno makro

que fácil seria para mim percorrer-me ao caminho do teu verso
das tuas frações de almas
 e alma decantada
à altura

que fácil seria entregar assim o bilhete
sem data, o bilhete com sono
o bilhete

também seria fácil chorar estas palavras
seria fácil contar o que não é tão claro
porque é fácil contar
e se apropriar das verdades

aquela noite
aquela noite um milhão de partículas
o Nada, o Absurdo
                             se apoderou sobre meu corpo-micro
e me fez dançar com nosso Amor

[desculpa se ainda falo nosso, dito a verdade]

por dentro
um milhão de raios fracionados às teorias,
ao Nome no verso do e-mail,
um milhão de partículas invasoras já anunciavam uma pequena morte
[a minha]

a chuva só caia lá fora
nenhuma gota de partícula me escapou a você
tampouco me deixei ao descuido de dormir para passar

doía, mas ao mesmo tempo não doía mais

nada...

expelida por dentro do teu verso macro
eu matei acordada uma beleza
e isso é que não sei,
que matei

e como é fácil transformar em versos,
e como só cabe nos transformar nele
eu não transformo

aqui também não arredo um fio de cabelo do meu desejo,
para que descansemos em paz
esta noite


mais esta noite
eu não conto o que me existe dentro do  Dentro do verso
porque não tem mais jeito o meu verso sem você

terça-feira, 11 de agosto de 2015

De L. (Carta a P. - suavecoisanenhuma)

P.,

Foi aos 9 anos, durante uma exposição do Monet no MASP,  que aprendi que não são poucas as coisas que se tornam mais bonitas - e mais inteligíveis - à distância; e que distância para os olhos é espaço, mas para a memória, distância é tempo. O que transforma minha memória é o tempo que se espalha sobre ela, portanto, o passado me parece sempre melhor e mais bonito - parece fazer mais sentido. A ponte de Giverny é um retrato de tudo aquilo que guardo: só adquire um pouco de beleza - e mais, só faz sentido - quando se torna passado. É o efeito nefasto que o desenrolar do tempo exerce sobre mim, que sou incapaz de olhar com bons olhos para o presente.

Você me encontrou na casa de onde emergimos juntas, arrancando o limbo que carregávamos atado à consciência, cegas pelo excesso de luz quando ainda estávamos prestes a recebê-la. Como weird fishes, você me levou para a borda, onde havia terra e segurança. Chegando lá, me ensinou que não é necessário ter vegonha daquilo que se sente, e ainda: me ensinou a escolher as palavras como quem escolhe as tintas de um quadro.

A observar o mundo através da cor, e não do desenho.

Há algo de perverso na maneira que criamos obstáculos que nos impedem de termos nossas memórias renovadas. Amo meu passado como quem ama uma planta que está prestes a secar, mas não seca - nunca. Obviamente só uma mulher que tenha amado mais do que amo é capaz de também encontrar ilogicidades nessa matermática do amor contemporâneo, ou anomalias no discurso da Maura, nossa íntima desconhecida. Sei que você está ciente dos meus humores, ciente compassionada de minhas equacionadas angústias e se pudesse diria que eu me afastasse do centro dessa coisa que não sei o nome, dessa coisa que é nada e sendo nada ainda assim prossegue me consumindo, diria que eu me afastasse e continuasse no exercício da procura, e eu continuo, em todos os cantos frestas vincos, eu desprezando álgebra e discurso ilógico incoerente absurdo: danem-se os números, porque é melhor que se afogue o peixe que não vira cardume.

Foram lições possíveis apenas no silêncio, onde os sentimentos não estão submetidos à deformidade das palavras. Porém, no silêncio, nem sempre é possível manter os olhos no chão; há sempre a necessidade da compreensão táctil dos problemas gestos barulhos. Há sempre uma tristeza que pressente, que adivinha o outono.

Você me  avisou de que as verdades se repetiriam ao longo do tempo formando círculos concêntricos: "preciso me aproximar cada vez mais das margens desses círculos", pensei. Tempo é uma das poucas noções cuja existência há de ser sempre indubitável; um cego, por exemplo, é capaz de medir o tamanho de um espaço pelo tempo que demora para percorrê-lo. É preciso separar o discurso das possibilidades, ou tatearemos o nada. Como cegos. Para sempre. Toda uma vida calculando distâncias  no escuro e venerando a beleza do passado, esse abismo intransponível.

Você participa de todo o amor que tenho pela vida.

Amor, amor.

Um beijo,
[que tivesse um blue,
isto é
imitasse feliz
a delicadeza, a sua
assim como um tropeço]


L.



[e senti como um abraço "New", do paul mccartney, por quem temos profundo carinho em musicais internos]

terça-feira, 16 de junho de 2015

almas

eu tenho uma boca pervertida
mãos pervertidas
pés pervertidos

mas isso constitui o meu nome

e o de dentro, sem nome,
é puro casulo
é medo e desejo,
                          mistério

por isso nunca paro no lugar do seu corpo

nenhum corpo me dá a fome da minha fome
porque no corpo [o meu],
e se por acaso o meu no Seu
desconhecidos,
Eu não estou nele

e se amar,
nós não estamos
                         mais

domingo, 24 de maio de 2015

amorte

eu tinha um frasco de você
guardado na boca
para quando fosse noite ou dia
em meus dedos
me chupar você em oferenda a mim

percorreria curvas do meu pescoço
e seguraria o coração nos meus peitos cheios
do meu corpo e dos meus olhos fechados desse você sagrado
cravaria-me as unhas
cruzaria-me as pernas
fecharia-me de mim os olhos para todos os outros
porque em mim o seu nome
em cada parte
fincaria-me você ávida e sem volta
como um gozo

no mundo do de dentro dos vestidos
você seria flor,
colibri nascidos pra dentro

e no eu que era você daqueles olhos descaminhos
frescor líquido da memória
escorrido como um esgoto para o nada,
nítida metáfora:
ideia, pensamento, amor
que me curava de você o corpo,
poço a poço
benzimento de fim ternura

cada parte da noite,
escuro a escuro,
na minha boca você,
                              o meu sussurro

pela manhã
o café, os sonhos descansados na mesa
e o teu nome também
em meu sorriso

estou só, é verdade,
mas te toquei-me esta noite,
e uma parte que não me sei é azul
amorte

Led Zeppelin - The Rain Song


ciganos: pai e filho, espíritos santos

os pés do meu pai
moram na casa do meu poema
como um destino de 
família nenhuma

e meu poema órfão
sem irmãos tios ou avós
nem pai tem o poema
da casa do pai
                        ou mãe poemãe
                        não tem

meu poema caminha solitário
nas calçadas
e ele tem
o mundo inteiro
nos pés

quando sai de casa e trabalha,
o meu poema se sustenta

de verso, flores, árvores e tudo o que vai
em idas

meu poema só 
                         é
e ele não tem
volta

mas há casa nenhuma
e pés,
meu pai...

segunda-feira, 18 de maio de 2015

janela

aqui está sem portas
e lá de baixo alguém pede socorro

salto.

sobre mãos e manhãs...

se minhas mãos
fossem manhãs
elas te colheriam ao calor do dia
e deixaria sob tua existência um pedaço seu de sol
e roubaria o girassol dos teus ombros
para enfeitar a lua

se minhas mãos te fossem manhã,
eu te puxaria pro outono,
e te mostraria a loucura do céu desestrelado
desvendaria algumas nuvens
e te contaria a formula do arco-íris de dentro dele,

e eu te acordaria aos beijosmãos

mas minhas mãos só mãos, 
e as manhãs estão tão distantes de nós
agora

terça-feira, 12 de maio de 2015

terça-feira, 5 de maio de 2015

gaita

ninguém sopra o amor
para a gaita do meu coração
como você

poesia

é com a boca cheia
de uvas
que escrevo este poema
no pé dos teus
cachos de 
palavras ...

e eu quero dizer alguma coisa que faça
um sentido de líquidos estourados e vivos

e eu quero dizer alguma
coisa vazia que me transformo quando falo

e eu quero me pisar inteira de você
e amor e poesia e ternura escorrendo da boca
ao pescoço
eu quero as palavras deste poema
que você me causa

eu quero, juro,
que
quero você na minha boca
vazias uvas 
explosões de uvas
roxeado brilhante no selvagem dente
do verbo

eu quero mesmo

mas ainda estou inteira
boca cheia vulvas
uvas 
e teus cachos não são

uva sou
e uivo em lilás

quarta-feira, 29 de abril de 2015

efeito gaiola

enfeitou gaiolas 
e me deu pulseiras
sedas cetins
medidas de alturas
cronometradas asas

mas pássaros nascem vestidos de
asas voos idas
nudez silenciada
no tempo das asas
não existe tempo
e ninguém é céu

segunda-feira, 6 de abril de 2015