quarta-feira, 12 de março de 2014

Porco-Menino, Hilda e eu numa confusão

Cancroso doer entre as pernas, Hilda. Sinto que me morreu algo aqui dentro. O Divino, O Menino-Louco, ele já te respondeu tudo, Hilda? Me conta, fala comigo no rádio. Apareça no meu sonho, me conta da matéria da árvore caída lá do outro lado da rua, deita aqui no meu colo no sonho e conta pra mim, que eu vou pro vão da escada e me deito com a Senhora D. Fala pra senhora D, que eu vou ler de novo, de novo até ela me dizer. Interceda, inter ceda, seda de mim você, Hilda. Se for preciso, peça a Deus. Ele já te falou do amor? Do doer? Da falta? Ele te explicou o que? que ehud foi um lápso. A vida é um lapso, Hilda? Maria conversa contigo, Hilda? Lori Lamby está perdoada? Você me vê? Eu sei que você não me conhece, mas eu toquei dores suas, que também são minhas. A loucura Hilda não é privilégio seu só não. Sabe, outro dia conversei com a Maura, ela disse que hospício é aí aonde você está. Sim, ela escreveu um livro dizendo que Hospício é o Porco-Menino, ops, que é Deus. Me diz, eu não sei mais rezar, Hilda. Rezo em poesia, rezo e minha água benta são minhas lágrimas que nunca secam. Mas eu estou seca, entende? Sabe aquelas folhas de inverno, não, não, de outono, que aí elas duram mais.. então, estou assim. Mas vou te contar: eu sonhei uma vez que um porco falava comigo, eu tinha a fala dele, não ele a minha, e nossa!!!! Transtorno, Hilda? Não sei... não estou com nenhuma tarja preta ainda. Mas sabe, isso foi antes do teu Porco-Menino. Do nosso. Você está me ouvindo? às vezes parece que tudo aqui tem ponta, que tudo tem boca prestes a me devorar o pensamento. Você pode me ajudar? tenho medo da minha confusão, sabe. O que? Sim, sim, eu gosto da minha solidão, livro os outros de mim, é melhor. Oi? Não, Hilda, não é isso.. veja, você está falando com Sr. Outro? Pergunta pra ele se vou continuar doendo muito. Não, sabe, não compreendo a dor, só sei dos seus sentidos. Sabe, a felina sente dor  no parto mas depois morre de lamber seus filhotes, ataca achando-se capaz de matar quem os ameaçar, mas a dor é uma resposta do suportar não é? Mas não suporto essas gentes. Quero que vão todos pra casa do caralho. Sabe... sinto que morreu algo aqui dentro. E acho que foi a morte do controle da dor, está desmedido, entende? Dói, dói.. o chão dói, o teto dói, meu corpo dói, as roupas pesam, o céu chorou a tarde toda. Meus fantasmas se instalam nos dedos, na língua, em tudo o que foi feito para externar e eles me mordem se eu não dizer, eu choro, que eu sinto, sabe. Às vezes eles trocam alguma conversa, diz que vai ficar tudo bem por um ou dois dias, até uma semana eu fiquei bem, sabe? Mas eles voltam.. tudo com garras me devorando, me mandam escrever e eu não escrevo compreensão não. A Maura, ela me chamou para ser internada e escrever com ela a parte 2 do hospício é Deus, não sei.. ela morreu louca, sabe. Mas não sei como alguém com um diário como o dela morre considerada louca. Ela é uma das pessoas mais lúcidas que li. Mas sabe.. estou sendo devorada agora. Preciso parar de falar.. morreu algo aqui. É só isso que eu queria falar pra você e ver se você passa pra ELE, se já tiver pertinho dele, eu não sei rezar, avisa, avisa que morreu muito algo aqui dentro e que estou sangrando.

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